O conservadorismo não tem futuro

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Como bem coloca a Bruna Torlay, a partir de Francis Bacon todo o sistema tecnológico é colocado a serviço do poder. E também ensinava Olavo de Carvalho que o traço mais marcante do poder humano é a diferença de poder entre o mais forte e o mais fraco, e que essa tendência é amplificada por quem possui os meios de criar novas tecnologias. Ou seja, essa relação de retro-alimentação tecnologia-poder é justamente o traço definidor das sociedades modernas.

Sendo assim, me coloquei a questão não sobre o quê, mas sobre o como: como todo o sistema que temos hoje foi criado e quem são os protagonistas? Para responder a essa questão, nos últimos meses tenho me dedicado a entender como surgiu o mundo da tecnologia contemporânea. Li várias biografias nesse período, tentando resgatar origens antigas, como Leonardo da Vinci, e entender mentes modernas como Edison, Tesla, Jobs e Musk. Também estudei a história de instituições como a Bell Labs, corporações como HP e Intel e também do Vale do Silício.

Algumas coisas acabam sendo mais espontâneas que outras, como é o caso do Vale do Silício e da Bell Labs, fenômenos cotemporâneos e que são resultado de um ambiente propício que se desenvolveu no Estados Unidos. Porém, como isso foi possível depende de dar um passo atrás, e começa a ficar mais claro quando olhamos para Nova York na virada do século XIX para o XX. Ali surgem essas duas figuras centrais, que são Edison e Tesla, num ambiente de ampla liberdade empreendedora e intelectual. A figura do gênio ganha projeção na medida em que suas invenções vão mudando muito rapidamente a sociedade, como foi o caso dos motores de indução de Tesla e da lâmpada de Edison, para citar duas entre milhares.

Porém, o que quero tratar aqui não é da história, mas do pano de fundo. A questão central da coisa toda é como nos guiamos no presente em direção ao futuro, e a resposta é, obviamente, a imaginação. O que todas essas figuras têm em comum – de da Vinci a Musk, é que eles têm uma imagem vívida do futuro com as suas magníficas invenções e, mais do que isso, têm a capacidade de comunicar e de maravilhar a sociedade. Todos eles, sem exceção, são vendedores de futuros. Quando eles falham, costuma ser por dois motivos: ou levaram tempo demais para entregar uma promessa grandiosa, ou já não convencem mais ninguém. Todos esses gênios passaram por algum momento desse tipo, alguns se recuperaram e outros não, como foi o caso do Tesla.

E aqui entra a próxima pergunta fundamental, que é de onde eles tiram essas inspirações. É lógico que é parte do seu gênio criar coisas novas, e que isso não é qualquer um que faz – eis a definição de gênio; mas há também um subtrato imaginativo anterior e o futuro que vendem sempre é baseado nisso. Por exemplo, tudo o que Steve Jobs fazia era baseado na pseudo-religião Zen. O futuro que ele vendia é que os computadores da Apple seriam uma passagem para um futuro sem as agitações e tribulações da vida cotidiana dos anos 70. Já Musk claramente se baseia nas ficções de Asimov.

Edison e Tesla (é muito difícil tratá-los separadamente) vivem num contexto de uma Nova York impregnada por seitas esotéricas que pregam uma conexão entre a tecnologia e a mística. Um artefato como uma bobina de Tesla, numa época em que ainda não existia luz artificial, realmente criava uma impressão legítima de magia. É preciso ressaltar que a característica fundamental dessas crenças esotéricas ocidentais reside na confusão entre espiritual e sobrenatural, assim, uma coisa que simplesmente brilha no escuro vira uma passagem para um mundo onde o conhecimento é ilimitado. Esse é um dos rompimentos fundamentais com o Ocidente, já que na visão da filosofia grega, o mundo espiritual seria o das Ideias inteligíveis, e não o dos fenômenos fantasmagóricos, mas isso é outro assunto. Basta dizer que a visão esotérica predominante hoje nada mais é que analfabetismo funcional e confusão de signos e significantes.

Voltando ao assunto, o próprio Tesla se envolveu com gente altamente duvidosa que pregava esse tipo de doutrina. Em certo momento, ele até acreditava que existia vida em Marte, crença essa que vivia na literatura cotidiana nova-iorquina e era propagada como se fosse uma verdade óbvia – alguma semelhança com as narrativas modernas? Foi precisamente esse movimento literário, fomentado por líderes de seitas esotéricas através dos seus iniciados, que criou o gênero de ficção científica que moldou o imaginário dos dias atuais. A coisa começa com objetos que brilham no escuro e terminam com a tecnologia como a grande libertadora da humanidade que vive nas trevas da religião.

E aqui entra a provocação desse artigo: qual a contrapartida dos conservadores? Qual é o futuro que nós imaginamos? Toda a literatura conservadora é puro pessimismo e lamentação pelo fim da Idade Média. Existe um questionamento feito por Joseph Campbell – que entendeu errado o problema, mas fez a pergunta certa; que é como a religião moderna vai incorporar os computadores na sua crença. Campbell achava que a questão era de inserir os computadores nos cultos e nos símbolos, mas a questão não é tão simples assim se não formos tribos primitivas.

De fato, não houve uma correta assimilação das tecnologias do último século pela Igreja Católica. A última encíclica papal, a Magnifica Humanitas, é um passo fundamental nesse sentido, mas o trabalho não é só do Papa e não, principalmente, só de cunho filosófico. O que é preciso mesmo é de ficção. Como os católicos vão lidar com os problemas do futuro? Como seria a vida num mundo que fosse uma mistura da Toscana medieval com foguetes do Musk e IA?

A meu ver, falta a ressignificação da tecnologia dentro do seu lugar correto na civilização, dar um ctrl+z no Bacon, e isso só pode ser feito pela imaginação, ou seja, pela literatura. Só que essa literatura é praticamente inexistente. Nós gastamos tempo demais identificando os problemas, e tempo de menos imaginando o que poderia ser se as coisas fossem diferentes. Essa fase de problematização e diagnóstico já foi muito bem feita, diga-se de passagem, mas é preciso seguir adiante. E se São bento tivesse se rendido a esse espírito derrotista? Não foi as ordens beneditinas que seduziu os bárbaros com a tecnologia?

É óbvio que a questão central para a Igreja é a salvação das almas, mas quantas almas não estão se perdendo justamente porque elas não possuem uma alternativa melhor de vida terrena? Nesse momento de crise civilizacional, de iminência de uma guerra mundial devastadora, da ameaça dos regimes tecno-fascistas, qual é a alternativa de um futuro melhor? Não é um modelo medieval, ele já acabou. É preciso pensar numa solução adequada aos tempos atuais. Isso se faz imaginando cenários detalhados com seus conflitos e nuances, ou seja, obras de ficção.

Enquanto isso, eu vou seguir nessa minha saga, e o próximo passo é ler os livros do Asimov. Desejem-me sorte.

Fábio Ardito

Pelo mundo atrás de treta.

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