Como o Lamborghini Countach arruinou o design automotivo

Se tem um carro que é icônico pelo motivo errado, é o Lamborghini Countach. Ele é mais feio que um cruzamento de uma ema com um ferro de passar roupa. E foi exatamente isso o que o seu designer, o Marcello Gandini, quis colocar nesse carro. Numa entrevista que deu ao David Cironi, disse que seu favorito, entre Countach e Diablo, era o primeiro porque o segundo precisava ser mais feio e mal. Ou seja, o Countach foi feito para parecer um animal selvagem mesmo.

Lamborghini Countach

Ainda nesse entrevista, Gandini meio que desfaz do Miura – também sua criação; e considerado por muita gente como o carro mais bonito de todos os tempos. O Miura foi, realmente, um marco tanto na história da Lamborghini quanto da indústria automotiva em geral. Suas linhas não eram exatamente inovadoras, eram o auge de um design que tomou conta da Itália nos anos 50 e 60, e que explorava linhas femininas na carroceria.

Lamborghini Miura

Acontece que o Miura não era só um corpinho curvilíneo, ele trazia uma série de inovações realmente impressionantes, especialmente na disposição do trem de força e no método construtivo da carroceria. Tanto que foi o carro de rua mais rápido do mundo por um bom tempo, além de inaugurar a categoria dos supercarros. Do ponto de vista de engenharia, ele foi muito mais importante que o Countach.

O que aconteceu, em seguida, devido ao sucesso do Miura, foi que o Ferruccio Lamborghini deixou toda a equipe criar livremente, e assim nasceu o Countach. E esse foi, ainda mais do que o Miura, um marco tanto para a Lamborghini quanto para a indústria toda. O Countach trazia um sistema de tração também inovador, com o câmbio virado para a frente do carro, que permitiu uma distribuição de peso ainda melhor que a do Miura, apesar de ser muito menos inovador.

Porém, foi no departamento de design que ele mudou o curso da história automotiva. Enquanto nas gerações anteriores o design era ditado pelo erotismo, no Countach a expressão era de força. E faz sentido, convenhamos. O carro é um monstro, com um V12 enorme no qual o motorista vai quase sentado em cima, é potente e muito rápido, até para os padrões atuais. Enquanto o Miura era uma espécie de acompanhante de luxo que seduzia a todos pelo seu refinamento e ousadia, o Countach era uma arma para mostrar superioridade física, pura força bruta.

O tamanho do trem de força de um Countach é simplesmente desproporcional!

A ideia por trás do Miura era o de uma mulher bonita. E a ideia por trás do Countach era o de uma fera, como um touro – que era, aliás, o símbolo da Lamborghini. Dado o sucesso avassalador do Countach com a sua nova filosofia automotiva – que foi fabricado por vinte e cinco anos quase sem modificações; todo o resto da indústria seguiu a tendência. Tanto que os carros que o Gandini projetou depois do Countach seguiam a mesma filosofia, como o Lancia Stratos, que era outra máquina feia de doer.

O Lancia Stratos é mais feio que bater na Nonna

Todos os supercarros, depois disso, passaram a ser encarados como bestas, e não como obras de arte. Os designs foram tornando-se cada vez mais agressivos e isso acabou descendo até os carros populares. Se até um Ônyx tem linhas agudas e bestiais, a culpa é do Gandini. Naturalmente, a partir do momento que um carro deixa de ser visto como arte e passa a ter status de arma, uma hora passaria a ter o mesmo design de uma máquina de guerra. Não é a toa que os Lamborghinis atuais parecem caças de quinta geração. Isso é só a continuação da filosofia do Countach.

Por outro lado, parece que isso está mudando para melhor. Basta ver como a nova Ferrari Roma lembra muito mais um Miura do que Countach. Pra mim, esse é o rumo certo. Gosto de armas, mas prefiro as mulheres.

Ferrari Roma

Fábio Ardito

Pelo mundo atrás de treta.

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