Por que o céu azul quase sempre estraga a fotografia?

  • Categoria do post:Fotografia

O azul do céu é sinônimo de coisa boa. A gente nunca vê alguém atribuindo coisas negativas ou tristes ao céu azul e, na verdade, tem até expressões que usam o céu azul como metáfora pra uma vida calma e feliz. É como canta a Ella Fitzgerald naquela música famosíssima, blue skies, smiling at me (o céu azul sorri pra mim). Mas o fato é que, na fotografia, o céu azul costuma estragar as fotos.

Acho que vou ter que recorrer a uma outra música pra explicar isso, e dessa vez vai ter que ser o Adoniran Barbosa. O Samba do Arnesto é a história de um cara, o Arnesto, que convidou os amigos pra tocar um samba na casa dele. No dia combinado, os amigos chegam na casa do Arnesto e descobrem que levaram o cano. Então, eles vão embora jurando que nunca mais voltam. Já o Ernesto, na época, era um rapaz conhecido do Adoniran Barbosa, que prometeu fazer uma música inspirada nele. A história toda você encontra aqui, e vale muito a pena ver porque é bem engraçada!

Resumindo a coisa toda, o Ernesto da vida real nunca deu a mancada do Arnesto da música. Um dia, quando o Ernesto finalmente encontrou o Adoniran, perguntou porque ele tinha dado aquele desfecho à história do samba, que nunca aconteceu. A resposta do Adoniran foi certeira: Arnesto, sem mancada não tem samba, né?

Foto boa tem que ter alguma novidade

Acho que a coisa é mais ou menos por aí. A arte vive dessas tensões, e sem um bom drama a coisa tende a ficar sem graça mesmo. E acho que é exatamente isso que acontece com fotografia que tem céu azul. Ele é uma experiência cotidiana, todo mundo vê praticamente o tempo todo e, a menos que você more em algum lugar como a Inglaterra, ele está lá quase o tempo todo.

E, sem dúvida, a novidade é um dos elementos mais importantes da fotografia. As pessoas não têm interesse em ver coisas que elas estão acostumadas. É tédio que fala, né? Então, toda foto tem que ter algo novo. Por exemplo, uma foto que eu sempre falo aqui é de um arandela que tem no jardim do meu prédio, e que um dia fotografei em preto e branco e mandei no grupo de moradores no Whatsapp. Todo mundo ficou maravilhado com a foto, justamente porque ela era uma novidade, ninguém tinha encarado aquele objeto cotidiano de um jeito poético como aquele. Por outro lado, se eu só tiro uma foto de qualquer jeito, ninguém nem tinha dado bola.

Fábio Ardito com Praktica B200, Prakticar 50mm f1.8 e Agfa Cinerex 50.

A questão com o céu azul na fotografia é justamente essa. Por mais que você esteja mostrando uma paisagem nova, ela pode parecer muito comum, e as pessoas não vão dar bola. Outra coisa que sempre aparece são fotos de paisagens bonitas em horários de Sol muito alto. Isso costuma acontecer principalmente quando as pessoas saem passear em algum lugar diferente. Só que o dia com a iluminação comum mata toda o romance da cena, e mesmo um lugar bonito pode acabar ficando totalmente sem graça.

Aliás, uma outra coisa muito comum é a foto ter um valor especial para quem tirou, por causa da ligação emocional que a pessoa pode ter com um lugar. Por exemplo, ela pode ter ficado impressionada com a beleza da paisagem ou de uma construção, mas isso não se passa automaticamente para uma foto e as outras pessoas podem simplesmente não achar nada demais naquilo.

Na minha carreira, essa é a história do barquinho no Trasimeno. Pra mim, é a melhor foto que já tirei, mas ninguém dá muita bola. Ela é um marco importante porque foi uma das primeiras fotos analógicas que fiz, e ela representava algo que eu próprio estava procurando. Mas é isso, ela é importante pra mim, pra outras pessoas é puro tédio. E um dos motivos é justamente esse, é um dia comum de Sol.

Paleta de cores

Já tratei nesse outro artigo, um tempo atrás, o assunto das cores na fotografia, e como é importante reduzir a paleta para conseguir fotos realmente impressionantes. Outro problema do céu azul pra fotografia é que ele ocorre justamente nos horários em que a incidência dos raios solares não é rasante. O que isso quer dizer é que todos os raios chegam na superfície, porque eles não são refratados e espalhados pela atmosfera.

Por exemplo, no fim da tarde o céu fica laranja justamente porque o ângulo de refração dos raios de luz azuis é maior do que o dos vermelhos. Então tudo o que é azul é espalhado para fora da Terra, e fica só o vermelho, que é o que a gente vê. Nesse caso, a paleta de cores ficou reduzida para o lado do vermelho, e é isso que cria aqueles efeitos de pôr-do-sol que ficam tão legais.

O fato importante aqui é que, quase nunca, uma foto que contenha todas as cores possíveis fique legal. É preciso restringir o número de cores para que elas combinem. Isso é que faz alguém olhar pra uma foto e ver algo de especial nela. Não basta uma paisagem bonita, é preciso ter um drama. E praticamente não tem como criar drama ou romance sem as cores certas.

Acho que o negócio é dar um exemplo. Veja essa foto abaixo, que é o meu protótipo de foto sem graça. A igreja não combina com as árvores que não combina o céu. E o céu é um azul só, monótono e chapado. Pra mim, na hora, pareceu o máximo, mas depois fui ver que era só uma foto normal de turista. Pra eu mostrar a minha viagem pra alguém está ótimo, mas não é uma coisa que impressione como arte.

Sombras

Outro problema bem sério com esses horários de céu azul é a chamada luz dura. O que isso quer dizer é que a luz vem direto lá do Sol até a superfície da Terra, então o Sol é como se fosse uma lâmpada bem concentrada iluminando a Terra. Em física, a gente chama isso de fonte pontual, ou seja´, é como um único pontinho irradiando toda a luz. Como conseqüência, a luz que incide dessa maneira gera sombras bem fortes. Isso faz com que algumas texturas acabem exageradas, que alguns detalhes sumam e que outros apareçam demais.

A grosso modo, fotos nessa condição costumam ficar esteticamente bem desagradáveis, como é o caso da igreja ali em cima. Note como as árvores são fortemente iluminadas pela direita enquanto são totalmente escuras pela esquerda. A igreja também é cheia de sombras, veja como a luz cria triângulos por toda a parte. Então, o que seria uma foto legal?

É só pegar o contrário disso. Então queremos que as coisas apareçam de maneira mais uniforme com sombras mais sutis e que valorizem melhor os detalhes. Veja essa mesma igreja, de um outro ângulo, e no fim da tarde. Ainda não é um fotão, mas já tá bem melhor. Essa aqui impressiona mais as visitas que a anterior!

Muita uniformidade

Outro problema daquele belo céu azul com tempo perfeito, é que ele cria zonas excessivamente uniformes na fotografia. Isso não só causa tédio, como também afeta a distribuição de peso do quadro. Aliás, falo bastante sobre essa questão de peso, e muitas outras importantes. Pra ficar bem claro, vamos pra outro exemplo. Essa eu tirei em Roma, em 2019.

Como estava de manhã, ela tem algumas coisas bem interessantes, como o ângulo das sombras em cima das ruínas ali. Só que esse céu azul no fundo cria todos os problemas que já falei. Primeiro, é monótono, é tudo um azul só, uniforme demais. Essa bela igreja e a ruína deveriam dar um fotão, e não deram. Ela acabou ficando bem comum. O azul do céu também não combina nem com as cores da igreja, nem com as ruínas. Isso cria uma aura de paisagem cotidiana, e parece só uma igreja velha.

Quando dá certo

Porém, como tudo na vida, existem as exceções, e tem horas que o céu azul cai perfeito, como vou mostrar agora. Só que não é todo lugar que fica bem, e você mesmo vai achar que estou apelando agora. E estou mesmo! Então vamos lá, essas fotos a seguir eu tirei numa cidade chamada Polignano a Mare, que também fica na Itália e foi a cidade que nasceu o meu bisavô.

Essa foto aí eu tirei com celular mesmo, e nem está tratada, só pra você ter ideia. Mas, começa que a gente não tem um céu totalmente limpo, tem umas nuvens que dão uma textura nele. Além disso, o azul intenso do mar serve de contrapeso, e a sua cor é análoga à do céu (se você não sabe o que é uma cor análoga, veja aqui). Além disso, a cor das pedras e das construções é suave e combina tanto com o mar quanto com o céu. O mesmo acontece com a grama. Vamos dar uma olhada em outra, também lá de Polignano.

Nessa, coloquei o horizonte mais ou menos na metade do quadro, justamente porque o céu faz o balanço perfeito com o mar. O tom azul profundo do mar também faz um contraste ideal, mas são aquelas nuvens ali no horizonte que fazem a mágica toda acontecer, além do desenho das pedras, que fica no encontro entre o céu e a terra. Mas, eu diria que, sem as nuvens, a foto teria ficado ruim, mesmo num lugar espetacular desses. Inclusive, o que seria dessa foto sem aquelas dando contrapeso à cidade no canto superior direito e sem aquelas em fluxo no canto superior direito? As nuvens salvaram o dia.

Acho que deu pra pegar bem a ideia. Pra fazer uma fotografia que não fique com cara de comum, é bom evitar dias de céu muito azul. Nuvens ajudam bastante, mas o ideal é pegar o comecinho e o finzinho do dia, que é quando as coisas costumam ficar melhores mesmo. Lá no meu Instagram sempre tem conteúdos e tutoriais que não tem aqui, então me segue lá!

Fábio Ardito

Pelo mundo atrás de treta.

Deixe um comentário